
Mahmoud Reda nasceu em 18 de março de 1930, no Cairo. Foi o pioneiro responsável por levar a Dança Oriental, no Egito, para os palcos. Foi solista e atualmente é considerado um dos melhores coreógrafos em nível internacional.
Realizou tournée por mais de 60 países. Apresentou-se nos principais e mais prestigiados teatros em mundiais tais como: Carnegie Hall (NY, USA), Albert Hall (London, UK), Congress Hall (Berlin, Germany), Stanislavsky & Gorky Theaters (Moscow, USSR), Olympia (Paris, France) and the United Nations (NY & Geneva).
Também foi o principal ator, bailarino e coreógrafo em vários filmes Egípcios. Mahmoud participou de diferentes tipos de filmes. Em alguns atuava sozinho e em outros seu grupo participava em algumas danças. O “The Reda Troupe” fez três filmes, são eles: Mid-week Holiday, Love Et The Córner, The Thief of the paper.
Em 1959 fundou a primeira Companhia de dança folclórica - “The Reda Band”, a qual consistia de 15 membros, todos bailarinos. Hoje tem mais de 150 membros incluindo bailarinos, músicos e técnicos.
Esta Companhia apresentou mais de trezentos (300) shows, tendo ainda participado em dois filmes musicais : ” Mid year vacation ” e ” Love in Elkarnak.
Mahmoud Reda recebeu o ” Egypt’s Order of Arts and Science” em 1967, ” The Star of Jordan” em 1965 e a “Order of Tunisia” em 1973.
Em 1999, foi condecorado pela “International Dance Committee/Unesco” e em 2001 pela” International Conference on Middle Eastern Dance”.
Como tudo começou
Durante os tempos de estudo sua atividade principal e paixão era a natação. Acabou parando de nadar, pois achava monótono. Participou de campeonatos para menores de 16 anos no Cairo e em todo o Egito. Logo após veio o mergulho mas teve um acidente em que machucou a coluna. Depois participou de ginástica e começou a observar que seu irmão Ali dançava rock, swing, samba e rumba, ele também já estava se interessando por dança. Na ginástica representou o Egito nos jogos olímpicos de 1952 em Helsinki.
Durante a segunda guerra no Cairo existiam soldados diferentes partes do mundo, Mahmoud observava que no tempo livre esses soldados costumavam dançar (ele tinha entre 15 e 16 anos).
Seu irmão sugeriu que fossem incorporados passos de dança em alguns dos seus exercícios de ginástica. Ele foi o primeiro no Egito a fazer isto.
Inspiração para companhia de dança
Sua primeira inspiração foi o irmão Ali, depois vieram os musicais americanos da Década de 50. Fred Astaire e Gene Kelly estrelavam estes filmes, Mahmoud chegava a ver os filmes umas trinta vezes. Toda noite mesmo quando tinha provas ele costumava sentar no lounge dos cinemas e estudar durante a primeira parte não o filme e sim os desenhos e as notícias,quando ouvia que o filme começara fechava seu livro e entrava. Se ele aprendia algo novo no filme ele ia direto para uma rua escura tentar os passos antes que pudesse esquecê-los. O que ele aprendia dos atores e dos filmes ele não usava diretamente no trabalho, usava somente a arte, não passos específicos, até porque estava fazendo folclore egípcio.
No ultimo ano de suas provas na universidade ele conheceu um grupo de dança da Argentina que se apresentava na rua da pirâmide, no final da apresentação ele foi parabenizar Alfredo Alario que perguntou se ele dançava, prontamente ele respondeu que sim e mostrou alguns passos, e foi assim que ele ingressou no grupo de dança Argentina.
Acabou se apresentando no Cairo, Alexandria, Roma e Paris. Foi então que a idéia de formar seu próprio grupo surgiu: “se estou dançando folclore Argentino porque não dançar folclore Egípcio?”, portanto a idéia nasceu em Paris. Mahmoud logo deixou o grupo argentino e voltou para o Cairo com a idéia de começar seu próprio grupo folclórico.
Voltou de Paris em 1955, apaixonou-se e sentiu que tinha que casar, ela era a irmã mais velha (20 anos) de Farida Fahmi (15 anos), na época Mahmoud tinha 25 anos. Como se casou precisava trabalhar. Foi contador na Shell que o transferiu para Suez, isso atrasou um pouco o inicio de seu grupo de dança e quando voltou de Suez deu inicio ao seu sonho. Sua estréia oficial foi em 6 de agosto de 1959 em um teatro a céu aberto que não existe mais chamado Al Ezbekiyya Teatru (“Nos Jardins de Ezbekiyya”). Mahmoud ganhou apenas dez dias, caso seu show fosse um sucesso, então receberia mais um mês. É interessante salientar que até hoje o grupo tem problemas com o Ministério Egípcio da Cultura, que é muito mais uma fonte de problemas do que de ajuda.
Na opinião pessoal de Mahmoud o problema era que seu grupo era privado e o ministério queria ter seu próprio grupo, tanto é que anos depois que a Reda Troupe iniciou, o Ministério da Cultura do Egito formou sua própria troupe chamada Kawmiyya.
Iniciar um projeto como a troupe Reda sozinho não é possível, Mahmoud sabia como dançar, coreografar e ensinar, mas um teatro precisa também de artistas, músicos , cantores e uma organização. Portanto uma das primeiras pessoas que ajudaram foi Ali Reda (seu irmão) que nesta época era diretor assistente em filmes. Ali conhecia vários artistas dos filmes, conhecia decoradores de palco, músicos e, quase todo mundo. Ele ajudou a trazer estas pessoas. Outros ajudaram muito a troupe Redá, o pai de Farida, que era um professor de universidade e ensinou outras coisa além da arte da dança: engenharia e planejamento. Por ser pai de uma dançarina e professor de uma universidade ele ajudou indiretamente dando importância para este tipo de arte, pois naquela época a reputação da arte não era boa. O gênio músico e compositor Ali Ismail foi trazido por seu irmão. A irmã de Farida, Nadida desenhou os primeiros trajes para a primeira performance. Nadida morreu cinco anos depois que casou com Mahmoud devido a um coração reumático.
Primeiros dançarinos além de Farida Fahmi
Era difícil encontrar dançarinos, pois todos os mais experientes já tinham seus estilos. Em um grupo são necessários dançarinos que se pareçam fisicamente, que tenham o mesmo estilo e a mesma técnica. Por isto Mahmoud encontrava seus dançarinos masculinos em clubes de esporte, como por exemplo, Mo Geddawi, que era um nadador como ele. No início eram sete homens e sete mulheres. Encontrar as mulheres era mais difícil devido a reputação da dança. Em relação às mulheres no inicio era impossível ser muito seletivo, eles ficavam felizes com as que quisessem dançar com eles, Mahmoud as ensinava do zero.
Inspiração para as primeiras danças
Mahmoud tinha pressa de iniciar, mas sabia que estes assuntos precisavam de muita pesquisa. No inicio ele adiou um pouco a pesquisa e usou sua sabedoria sobre o folclore adquirida por ter vivido em lugares do Egito antigo. Ele usou essas idéias para seu primeiro programa que chamou de “sketch”. Sketch é como um personagem e a idéia de uma história foi produzida ao redor deste personagem como o vendedor de Syrup. Não existe dança no folclore chamada de “O Vendedor de Syrup”, mas Mahmoud usou o personagem e trouxe garotas e garotos do Cairo Antigo. Garotas com a Melaya para comprar Syrup dele, então o vendedor vê Farida, a primeira dançarina, flerta com ela e as coisas acontecem.
Outra dança no repertório é a chamada a “flauta mágica”. É sobre um garoto apaixonado por uma Fellaha (camponesa da vila), mas seu pai não gosta dele, ele usa flauta e toca musica para ele com o objetivo de ganhar sua simpatia. O garoto chega a dançar para este homem, até que finalmente o pai da moça concorda que se casem.
Para o primeiro espetáculo ele usou sua antiga e existente sabedoria e fez seu primeiro programa chamado “Sketchs” retratando personagens folclóricos. É interessante ressaltar que essas danças ainda fazem parte do repertório da companhia. Suas primeiras danças foram Melaya Laff e Hagalla.
Após o sucesso e a aceitação do publico Mahmoud finalmente teve tempo de fazer sua pesquisa, ele organizou um grupo de cinco ou seis dançarinos e percorreu o Egito estudando o folclore real começando em Aswan. Levaram câmeras, gravadores e alguém para escrever. Eles falavam com as pessoas, gravavam suas histórias e então escreviam suas canções. O grupo foi percorrendo o Egito até chegar ao Cairo. Em cada cidade escolhida ficavam cerca de três a quatro dias. Gravavam as danças, a música e anotavam tudo.
Mahmoud descobriu que existiam coisas boas e ruins com o folclore do Egito, a parte boa é que era como um tesouro que ninguém havia descoberto e a parte ruim é que existia muita repetição tanto nos passos como na melodia. Por exemplo: pode se encontrar uma mesma melodia com varias letras, portanto é um grande tesouro mas o material é pouco. É preciso muito trabalho e imaginação para elaborar um espetáculo com tão pouco material, pois naturalmente no teatro o público espera algo mais elaborado do que a realidade do folclore que encontramos nas ruas. Nas ruas existe uma espontaneidade maior, todos podem participar, mas se tentarmos trazer isto para o teatro onde o público apenas assiste, não funciona e fica monótono, por isso que Mahmoud não chama sua coreografia de Folclórica, em vez disso ele ressalta que ela é inspirada no folclore.
O pai de Farida estava sempre na audiência observando a reação das pessoas ao espetáculo para investigar se as adaptações de Mahmoud agradavam ao público. Quando observavam que havia pessoas na platéia que tinham contato direto e faziam parte do folclore que seria apresentado no espetáculo, o pai de Farida sentava perto destas pessoas para observar suas reações e conversar com elas. Seu objetivo era investigar se as adaptações mostradas nos espetáculos agradavam. Mahmoud descobriu que apesar de serem adaptações, em nenhum momento ouve descaracterização, pois o resultado era sempre positivo, as pessoas se viam no palco.
A partir de 1961, após ser por dois anos uma companhia privada a The Reda Troupe passou a ser financiada pelo Governo do Egito.
A Troupe Reda viajou o mundo mais de cinco vezes, somente nos EUA se apresentaram pelo menos dez vezes. Foi uma grande aventura, ele e sua troupe amavam o que faziam, não importava as condições: algumas vezes ficavam em hotéis de luxo como o Waldorf Astória e outras chegavam a dormir no chão em alguns lugares.
Mahmoud ministrou workshops em vários países, inclusive no Brasil. Seus workshops sempre tiveram um número significativo de alunas chegando a 620 pessoas no seu workshop na Argentina. Ficou impressionado com o fato de que não eram somente pessoas que iriam ter um retorno financeiro da dança e sim pessoas interessadas em aprender.
Um fato curioso na vida de Mahmoud é o motivo principal que o obrigou a deixar o grupo: foi quando a Troupe se tornou governamental. Os integrantes da troupe acabaram naturalmente se tornando funcionários do governo e, portanto, devem se aposentar aos 60 anos. Mesmo assim a troupe continua com o mesmo nome, coreografias e músicas. De uma certa maneira, Mahmoud sempre fará parte da The Reda Troupe.
Outras danças adaptadas por Mahmoud Reda
Mahmoud adaptou também danças de festividades religiosas. Havia também danças que eram sobre um mesmo tema,ou seja não eram folclóricas mas sim itens folclóricos .
Sugar Doll: dança das bonecas de açúcar: dança inspirada em um festivo religioso; o aniversario do profeta Mohamed. Nesta festividade são feitas bonequinhas de açúcar para mostrar para as crianças que Deus é doce.
Dança do Nilo: Inspirada nas mulheres que iam buscar água no Nilo com jarros de barro.
Dança do cavalo, Said, Candelabro.
O seu trabalho influenciou e moldou o que hoje é conhecido por Dança Oriental. Muitos dos grandes nomes ligados à dança oriental, tais como Raqia Hassan, Momo Kadous, Mo Geddawi and Yosry Sherif são discípulos de Mahmoud.
por Cinara Klein
Fonte:
http://www.portaldoventre.com.br